Jonathan Franzen, um cara legal.

O maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…

(Machado de Assis em ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’)

Jonathan Franzen é um escritor interessante.  É autor do aclamado Liberdade, um dos mais festejados lançamentos literários de 2010. O livro marcou o ano por, dentre outras aparições glamourosas, ter sido capa da revista Time. Liberdade recebeu críticas positivas dos jornais The New York Times, The Guardian e também da revista Esquire.  Aclamado pela crítica, foi um fenômeno de mídia. A apresentadora de TV norte-americana Oprah Winfrey o selecionou para o seu popular clube de leitura, o Oprah’s Book Club. Dia desses soube que até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi visto com seu exemplar de Liberdade junto ao sovaco.

Franzen escreveu ao todo seis livros, dentre eles As Correções, vencedor do prêmio National Book Award.

Tenho um Liberdade e um As Correções na minha estante e planos para adquirir A Zona do Desconforto, outro livro de Franzen que há meses paquera minha carteira na livraria e dela recebe uma desrespeitosa rabissaca. ( Antes de julgarem minha carteira de difícil, saibam que o danado exige CINQUENTA REAIS e cinquenta centavos para ser levado pra casa. Minha carteira tem feito ouvidos de mercador. Qualquer dia desses ela cede às investidas do – como carinhosamente passei a chamar esse persistente item da minha lista de espera de compras literárias. Continuando.)

Franzen, cara legal. Acontece que Franzen, o meu querido Johnny Franzen, andou falando bobagem. Pô, Franzen. (http://migre.me/7KFxx) Abre aspas: “Leitores sérios [grifo nosso] vão sempre preferir versões de livros impressas.” Fecha aspas, suspira, toma um gole d’água. Pô, Franzen.

Sou grande entusiasta dos livros impressos. Não tenho tablet e nenhuma dessas parafernalhas tecnológicas. Gasto o dinheiro que não tenho (cheque especial, dê um oi pros amigos!) comprando vários livros todos os meses. Gosto de ler grifando trechos, rabiscando, deixando marcas de dedos nas páginas. Me acostumei a ler assim, e como estou velha, é bem provável que esse meu hábito nunca mude.

Há quem goste de ler em tablets. Legal. De uma praticidade incrível deve ser carregar muitos volumes naquele trocinho que quase não pesa. Mas isso ainda não me convence a deixar de lado minha relação afetiva com o papel, essa coisa de tocar, sentir o cheiro, deixar minhas marcas e impressões no livro.

A questão é: quem lê no tablet tem acesso ao mesmo conteúdo que eu no livro impresso. Lê do mesmo jeito. Se enriquece culturalmente do mesmo jeito. É, Johnny. Sinto te informar, meu caro, que não somos melhores por lermos à moda antiga. Nem um tiquinho. No fim das contas, o ganho é exatamente o mesmo. Isso não faz de nós leitores sérios. Quem prefere ler no tablet não carece de seriedade.

Esse episódio do Franzen me lembrou um dos meus livros favoritos de Machado de Assis: Memórias Póstumas de Brás Cubas. (Agora vocês vão entender as aspas lá de cima e deixar de achar que eu sou daquele povo que diz E POR FALAR NISSO e insere logo em seguida um assunto totalmente diferente. Então.). Peguei meu exemplar antigo, das épocas de colégio, e tirei das folhas com cheiro de mofo a citação que coloquei lá em cima.

Machado de Assis encarnou Brás Cubas e escreveu esse magnífico livro em 1880. Desde a primeira vez que o li gosto muito dele. Hoje mais ainda. Machado de Assis foi um cara à frente do seu tempo. Há 132 anos, quando o Memórias foi lançado e o tablet nem sonhava em nascer, ele já previa que o livro e a leitura morreriam. E mais que isso: que as responsáveis pela morte da leitura seriam as cabeças duras dos leitores.

A leitura vai mudar. Não mais será como os leitores sérios esperam. O livro impresso vai se tornar artigo raro e ficar ainda mais caro (ouvi minha carteira chorando?). Mas eu, enquanto leitora apaixonada, tenho esperanças de que a leitura sempre exista. De uma forma ou de outra. E arrisco dizer com uma dose considerável de certeza que quem mantiver o hábito de ler edições impressas não vai ser maior por isso. Ou mais sério. Vai ser apenas diferente. Essa é nossa turma, Jonathan Franzen.

(Minhas sinceras desculpas por ser a portadora das más notícias, meu querido. Eu gosto é muito de ti. [SEU LINDO] )

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