Lembro perfeitamente do primeiro contato que tive com o ‘Livro sobre nada’, de Manoel de Barros. Eu devia ter uns dez anos de idade mal contados e meu maior divertimento era aproveitar minhas férias escolares encafofada na livraria de papai. Me perdia em meio aos livros. Foi numa dessas perdições que avistei de longe o ‘Livro sobre nada’. Ele estava numa prateleira alta, onde minhas mãos não o alcançavam. Chamei por papai e disse que aquele era o livro que queria ler naquele momento.

Papai sorriu e questionou a razão dele, dentre tantos, ter sido o escolhido. ‘Que histórias será que ele conta?’, me perguntou docemente meu livreiro favorito, fingindo não saber uma resposta que por certo sabia muito bem.

‘Ué, pai. Sobre nada. O nome já tá dizendo.’ Respondi enquanto imaginava um livro todo de páginas em branco. Mas se assim fosse, que tipo de bobo o compraria?

Tomei nas mãos o curioso livro que papai me entregava enquanto dizia ‘O que acha de ler, descobrir e me contar depois?’

É fato que não lembro da minha reação pós primeira leitura. Mas lembro bem que pouco tempo depois o livro, único exemplar que a loja dispunha, foi vendido a uma senhora de mãos trêmulas.

Muito tempo se passou, por motivos financeiros papai desfez-se da simpática livraria na avenida Dom Luís e eu permaneci com minha fixação pelo ‘Livro sobre nada’, cujo outro exemplar a editora não mais nos enviou para revenda.

Já na faculdade de jornalismo, uma professora que vez em quando tecia bons comentários sobre literatura disse ‘Leiam Manoel de Barros, meus meninos!’. Manoel de Barros. Click. A busca pelo ‘Livro sobre nada’, cuja única referência que eu tinha era ter sido escrito pelo glorioso Manoel, se tornou desse dia em diante uma verdadeira obsessão para mim. Não lembrava o teor do livro, mas ainda me era nítida a lembrança do episódio de encantamento que o título dele me proporcionou. Iniciei então uma busca pelo Nada que se arrastou por vários anos. Em todas as livrarias e sebos que conhecia solicitava ao vendedor um exemplar e recebia a mesma desanimadora resposta: ‘Este livro é esgotado na editora, moça. É muito raro. Duvido que você ache’. Depois de ouvir essa desanimadora frase reiteradas vezes, desisti do Manoel e seu Nada.

Há poucos dias papai me surpreendeu me entregando, sem muita cerimônia, um exemplar do livrinho. Não me disse como e onde conseguiu comprá-lo. E percebi também que ele certamente não conserva consigo a lembrança daquele dia na livraria. Quanto a mim, dei pulinhos e de pronto comecei a degustar as palavras do Manoel.

O nada do livro é a poesia. É a beleza. A sensibilidade. A sutileza dos detalhes, é o brilho do desapercebido. O encatamento.

‘O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora.’ [trecho]

Bonito. Ao fim do livro, meus olhos estão rasos d’água. Válida foi a espera de anos para (re)lê-lo.

O ‘Livro sobre nada’ fez casa na cabeceira da minha cama.

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