Convalescente

[‘The Convalescent’, de Gwen John]

 É algo que me rasga as entranhas, uma dor tão dilacerante que chega a ser mortal e domina todas as minhas sensações e sentidos. Queria detalhá-la para que você pudesse compreender-me mas não, não consigo, toda descrição por mais verossímil que seja é imprecisa, você não me compreenderia se eu falasse, e também não quero que te preocupes, quero apenas que você fique aqui comigo e me afague os cabelos, me acolha entre tuas pernas e aja como se este fosse o último dia em nossas vidas.

Não, não insista em perguntar-me o que sinto. Não estou tergiversando, só quero que hoje falemos de coisas belas, poderíamos falar sobre rosas, jardins, cores, sobre seu novo trabalho, a despedida do trabalho anterior que você tanto odiava, só hoje não dissertemos sobre o que nos maltrata, pra quê tantos monólogos, longos silêncios e profundos suspiros, meu coração?

Lá vem você me pedir silêncio, colocar teus dedos ensebados sobre meus lábios recém vestidos de escarlate, quão irritante é você, quem pensa que é pra me mandar calar a boca, acha que assim vai conseguir que eu fale sobre o que não quero falar?

Minha vontade é te arrancar os cabelos e as roupas, te dizer que essa porcaria de dor não tem nome mas eu a chamo de falta que você faz,  porque só me ocorre quando ouço teu caminhar portão afora, quando observo tuas costas e o espaço que entre nós vai se alargando, é quando sinto dores intoleráveis no meu âmago e meus olhos sangram como açudes em tempo de incessante chuva e lembro que te quero sempre aqui. Porque só quando o ranger do portão de ferro anuncia tua chegada é que dentro de mim toda dor se dissipa, a inquietude cessa e o padecimento encontra seu remédio.

Remédio esse que você carrega emaranhado em teus cabelos, voz e cheiro. Em tua forma de afagar o cachorro, em recolher o jornal que ainda está no gramado do jardim qual como foi jogado pelo entregador há muitas horas, na melodia do assobio que você sopra enquanto tira os sapatos para só então atravessar a porta de casa, em como me abraça, beija e diz que estou com cheiro de flor.

Essa dor sufocante e angustiante que só vai embora no exato momento em que te ouço dizer ‘Tem café?’

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