‘O que deu para fazer em matéria de história de amor’, de Elvira Vigna

‘O que deu para fazer em matéria de história de amor’ me atraiu pela aparente despretensão que carrega no título. Imaginei que se tratasse de uma história onde a narradora estivesse exaurida de escrever sobre amores perfeitos, ou que tivesse uma história de amor da melhor qualidade pra contar mas não sabia qual a melhor forma de fazê-lo. Para tirar a dúvida do que se tratava o livro, arranquei-o da prateleira da livraria e o trouxe para casa.

Nunca antes eu tinha lido nada escrito por Elvira Vigna, apesar de já ter ouvido muito que ela é uma das maiores e melhores escritoras brasileiras da atualidade. Vinícius Jatobá, do jornal Estado de São Paulo, classificou Elvira como ‘a melhor ficcionista brasileira viva que só um reduzido número de leitores ouviu falar’ [impresso,sobre-paginas-vazias,875043,0.htm].  Além disso, há algum tempo um amigo havia me indicado com veemência a leitura do livro anterior dela, o ‘Nada a dizer’, que depois de me deliciar com ‘O que deu pra fazer’ estou faminta por devorá-lo.

A autora criou uma personagem inominada que conduz a narrativa da história de forma não cronológica. Os fatos são contados por meios de seus flashes de memória. O livro é divido em três partes. Na primeira, ela conta um pouco de seu relacionamento com Roger, relacionamento este que vai além do fato de estarem os dois juntos ou separados. A partir dessa premissa a narradora insere no contexto as histórias de Arno e Rose e de Gunther e Ingrid. Gunther é irmão de Arno. Arno e Rose são pais de Roger. No entanto, sabe-se que Roger na verdade é fruto de uma transa fortuita entre Rose e Gunther, fato este que é tacitamente velado por todos os envolvidos.

A segunda parte do livro passa-se em um apartamento do Guarujá onde Arno e Rose viveram. É tentando entender o relacionamento dos dois que a narradora sem nome busca as respostas para o próprio relacionamento que mantém com Roger. A terceira parte é o arremate das intensas buscas dela de entender o amor para si e para os outros.

A escrita de Elvira Vigna é apressada. Frases curtas, pequenos parágrafos, capítulos ligeiros. A história flui com intensidade e ritmo. Ao passar dos capítulos o leitor percebe que o título do livro, ‘O que deu para fazer em matéria de história de amor’, não foi escolhido por acaso. E nem poderia ser outro. A narrativa parece se construir sobre um terreno de areia movediça. As incertezas das memórias e da imaginação da personagem sem nome deixam a dúvida no ar sobre a matéria prima da história: o amor.

Para além da aparente despretensão da narrativa, o livro é extremamente bem pensado e construído. É provocante e cativante, faz refletir. A literatura de Elvira Vigna é bastante diferente de tudo o que costumo ler,  e ‘O que deu para fazer em matéria de história de amor’ me encheu de vontade de conhecer um pouco mais dessa escritora carioca que também é ilustradora e mantém sobre si a áurea de mistério que só as pessoas verdadeiramente interessantes possuem.

‘Não é mais uma questão de tesão, nós dois. Ou só de tesão. Talvez nunca tenha sido. Gosto dele, acho, não sei mais. Conheço fatos sobre ele, não ele. Faço histórias em que ele possa caber, todas um pouco falsas, como são as histórias. Não sei quem ele é.  Acho que, enquanto não souber e precisar portanto fazer histórias, fico com ele. Quando não houver mais nada a advinhar, tirar, vou embora. Talvez nunca vá, talvez eu me engane. E nunca acabem, as histórias’  [trecho]

Ps: Eis um vídeo de Elvira falando um pouco sobre o livro:

Ps2: E aqui uma breve entrevista da autora ao Jornal do Commercio: elvira-vigna-viver-e-sempre-contar-uma-historia-43351.php

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