‘Um erro emocional’, de Cristovão Tezza

Só agora me permiti o deleite da leitura de ‘Um erro emocional’, de Cristovão Tezza. Antes dele havia me apaixonado pela escrita detalhista e fluida do autor lendo ‘O filho eterno’ (o-filho-eterno-de-cristovao-tezza) e tive meu breve momento de descontentamento com o escritor curitibano (que na verdade nasceu em Lages e criou-se em Curitiba) lendo ‘Beatriz’ (beatriz-de-cristovao-tezza).

‘Um erro emocional’ foi lançado em 2010, é portanto posterior a ‘O filho eterno’ e anterior a ‘Beatriz’, o último livro publicado por Tezza por meio da editora Record.

O livro já começa grande. Logo de início, no primeiro parágrafo, Tezza coloca em suspenso a respiração do leitor e o introduz numa narrativa carregada de sensações:

‘Cometi um erro emocional, Beatriz se imaginou contando à amiga dois dias depois — foi o que ele disse assim que abri a porta, o tom de voz neutro, alguém que parecia falar de uma avaliação da Bolsa, avançando sem me olhar como se já conhecesse o apartamento, dando dois, três, quatro passos até a pequena mesa adiante em que esbarrou por acaso, depositando ali o vinho com a mão direita e a pasta de textos com a esquerda (e ela se viu desarmada no meio de três sinais contraditórios, o erro, o vinho, o texto, mais a espécie de invasão de alguém que está à vontade — o que ela havia sonha-do, Beatriz teria de confessar à amiga, e ambas achariam graça da ideia — à vontade, mas não do modo correto) e Beatriz fechou a porta devagar com um sorriso de quem se vê imersa na ironia, e isso é bom; e se virou para escutar o resto, agora vendo-o com as mãos livres, a silhueta contra a luz, os braços brevemente desamparados daquele homem magro:
— Eu me apaixonei por você.’

É desta forma que Tezza nos apresenta Paulo Donetti, um escritor, e Beatriz, sua leitora, admiradora e futura revisora no processo de escrita de um novo livro do autor. O enredo principal de ‘Um erro emocional’, o encontro entre Paulo e Beatriz, ocorre numa única noite no apartamento da moça. Enquanto dividem uma pizza, algumas garrafas de vinho, café e chá, os dois conversam sobre suas semelhanças, contam histórias da vida um do outro e permanecem em longos silêncios.

A riqueza narrativa de ‘Um erro emocional’ é o autor utilizar não apenas dos diálogos entre os personagens, mas também dos silêncios entre eles para desenvolver a história. Desta forma parece que vemos Paulo e Beatriz por dentro e por fora, uma vez que é nos silêncios que as coisas mais importantes são ditas pelos dois.

A história é contada paralelamente por Paulo e Beatriz. Cada um relata para um terceiro o momento vivido no apartamento. Paulo conta para seu analista, enquanto Beatriz narra o ocorrido para Doralice, uma amiga. A construção textual de Tezza faz com o que o leitor se sinta um espectador privilegiado. Ele é onisciente em todas as situações da história.

Cristovão Tezza é preciso. As situações são narradas com a emoção exata que o momento exige. Os capítulos curtos provocam ansiedade no leitor que vorazmente devora as menos de 200 páginas do livro.

A oportunidade de ler mais uma obra do Tezza me encheu de vontade de ler muitas outras dele. A próxima, talvez, será ‘Trapo’, livro que teve adaptação para o teatro. A certeza que tenho é que minha paixão pelo Tezza é inquestionável e imutável. Ele é, sem dúvidas, um dos gigantes da escrita brasileira na atualidade.

Ps: Pra conhecer mais do Tezza, aqui vai o link para as 10 perguntas e meia respondidas pelo autor ao blog Meia Palavra: 10-perguntas-e-meia-para-cristovao-tezza

 

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