‘Respiração Artificial’, de Ricardo Piglia

Ricardo Piglia é um dos grandes nomes da literatura argentina. O escritor despertou minha curiosidade por produzir uma literatura que transita entre a crítica e a ficção, além de ser fortemente influenciado por Jorge Luís Borges, um dos meus autores argentinos favoritos. (Resenhei um livro de Borges aqui: https://marinasolon.wordpress.com/2012/05/28/o-livro-de-areia-de-jorge-luis-borges/).

‘Respiração Artificial’, o primeiro livro de Piglia que me caiu nas mãos, foi lançado em 1980 e recebeu o prêmio Boris Vian de romance em 1981. A narrativa começa em 1976, ano em que os militares tomaram o poder na Argentina e instauraram uma ditadura que se estenderia pelos próximos sete anos.

Por meio da história de Emilio Renzi, que começa a receber cartas de seu tio Marcelo Maggi, Piglia expõe as características mais marcantes da ditadura argentina. Maggi pede ajuda a Renzi para escrever a biografia de Enrique Ossorio, o suposto traidor de Juan Manuel de Rosas, um ditador do movimento militar argentino.

A importância da elaboração da biografia não é dita pelo autor. O que sabe-se é que Maggi é obsecado por esse trabalho. Para tanto, ele chegou a casar-se com a neta de Ossorio, que é tia de Emilio Renzi, com o objetivo de conseguir documentos antigos da família. Assim que os consegue, Maggi  abandona a esposa.

O livro é dividido em duas partes. A primeira, intitulada ‘Se eu mesmo fosse o inverno sombrio’, é contada por meio de cartas entre Renzi e Maggi, além dos diários do próprio Ossorio, dos relatos do sogro de Maggi (pai da mulher que ele abandonou) e de correspondências diversas. Essa parte do livro exige atenção máxima do leitor para que este não se perca entre os diversos personagens e situações. Confesso que por vezes tive que refazer leituras de algumas páginas para conseguir captar a contento o fio condutor e as cadeias lógicas da narrativa.

No entanto, o esforço vale à pena. Piglia é grande, ousado, singular. Tem semelhanças com  a literatura de Jorge Luis Borges ao relacionar a literatura com a história da Argentina. Piglia, assim como Borges, produz uma ficção com potencial político.

A segunda parte de ‘Respiração Artificial’ é “Descartes”. Nela são narradas de forma mais leve e prática do que a primeira parte do livro as conversas de Renzi com um amigo de seu tio Maggi, o polonês Tardewski, figura interessante por ter sido aluno de Wittgenstein e  jogado xadrez com James Joyce. Nessa parte Piglia fala de outros autores argentinos, como Robert Arlt.

Apesar de não ser volumoso (pouco mais de 200 páginas), o primeiro romance de Piglia não é fácil de ser lido. Todavia, a densidade da obra está intrinsecamente ligada ao seu caráter fascinante. A avidez pelo desenrolar da trama mesclada a pinceladas de história argentina contada por meio de ficção fazem de ‘Respiração Artificial’ um livro marcante.

Uma curiosidade: O romance de Piglia, ‘Plata Quemada’, deu origem, em 2000, ao filme homônimo do diretor Marcelo Piñeyro.

Ps: ‘Respiração Artificial’ pode ser adquirido por 17 reais em bancas de revista numa edição caprichada da Folha de São Paulo.

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