‘Dentes Negros’, de André de Leones

Atinei para a existência do escritor André de Leones vendo (pela internet, infelizmente) a primeira mesa de debates da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que ocorreu na manhã da última quinta-feira. O evento findou-se hoje. A mesa, intitulada ‘Escritas da finitude’, trouxe o tema da morte como inspiração para a literatura. Presentes à mesa, além de André de Leones, estavam os escritores Altair Martins e Carlos de Brito e Mello.

De Leones foi o que mais me chamou atenção dentre os escribas. Suas histórias sobre a morte chegaram a mim de forma engraçada, e despertaram minha curiosidade. Um dos relatos do autor durante a conversa foi um episódio ocorrido em Silvânia, cidadela no estado de Goiás, onde o autor nasceu. Ele contou que lá era habitual que as mortes fossem anunciadas pelo sino da igreja e que a nota de falecimento do defunto fosse lida por um sacristão. Numa dessas ocasiões o autor estava em casa quando o sino tocou e foi anunciada a morte de uma certa Lúcia– o mesmo nome da mãe de De Leones, que ficou nervosa ao ouvir a nota de falecimento. Diante da situação, Leones disse à genitora: ‘Calma, calma. Ou a senhora não morreu ou estamos os dois mortos’.

A perspicácia do escritor me atraiu. Tanto que imediatamente fui à livraria em busca de ‘Dentes Negros’, o último livro publicado por De Leones em 2011 por meio da editora Rocco.

Com pouco mais de 140 páginas, ‘Dentes Negros’ é daqueles livros que se esvaem em poucas horas. A leitura prende e só há sossego ao fim dela. O livro acontece num cenário inóspito: um Brasil pós apocalíptico onde grande parte da população foi vítima de uma doença desconhecida que mata subitamente e deixa negros os dentes dos mortos. O que restou da epidemia é a tentativa do governo de dizimá-la por meio de vacinas nos sobreviventes e cidades inteiras devastadas e abandonadas.

A narrativa é dividida em três blocos: ‘Ossos’, ‘Corpos’ e ‘Espíritos’, cada um deles sendo compostos por capítulos curtos ilustrados por fotos em preto e branco de cenários ausentes de pessoas.

O forte do livro, ao incrível que pareça, são os silêncios. Os personagens, em meio ao insuspeitado ambiente ao redor, parecem eternamente desconfortáveis e temerosos. São quatro os principais: Hugo, Renata, Ana Maria e Alexandre. Cada qual em sua solidão fruto da morte de suas famílias pela epidemia.

O relato transcorre, apesar do peso do tema, de forma leve. A morte é recebida com naturalidade e calma. O desamparo não se traz consigo o desespero. Não há um cenário de filme de terror sanguinolento com gritos, tiros ou fugas. Esqueça os filmes hollywoodianos sobre fim do mundo, eles em nada se assemelham a este livro. A escrita de Leones é sóbria, cativante e emotiva sem se utilizar de escândalos sentimentais. Um trecho:

O fim do mundo veio e ficou e, de repente, tudo se tornou possível. O fim veio e ficou, veio para ficar. Não vai a lugar algum. Instalado, acomodado. Não irá embora. Será o fim por toda eternidade. O que acontece, acontece durante o fim. Isto é um fim, ele pensa. E o fim nunca termina.’

Devo dizer que o livro me surpreendeu muito além das minhas expectativas. Já estou me organizando para adquirir outros livros do goiano André de Leones.

Uma curiosidade: O autor tem mais três obras publicadas: ‘Como desaparecer completamente’, ‘Hoje está um dia morto’, dois romances, e ‘Paz na terra entre os monstros’, uma coletânea de contos. ‘Hoje está um dia morto’, recebeu o Prêmio Sesc de Literatura em 2005.

Ps: Aos interessados, André de Leones alimenta este blog aqui: http://vicentemiguel.wordpress.com/

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