‘Um Homem: Klaus Klump’, de Gonçalo M. Tavares

‘Um Homem: Klaus Klump’ é o livro de estreia da tetralogia ‘O Reino’, escrita pelo angolano radicado em Portugal Gonçalo M. Tavares. Os demais livros da série são ‘A Máquina de Joseph Walser’, ‘Jerusalém’ e ‘Aprender a rezar na era da técnica’. ‘Jerusalém’, a mais aclamada dentre as obras de ‘O Reino’, recebeu o Prêmio José Saramago em 2005, com direito a elogios acalorados do próprio Saramago, que, descontraído, disse que Tavares escrevia tão bem tendo apenas 35 anos que dava ‘vontade de lhe bater’.

‘Um homem: Klaus Klump’ versa sobre a natureza humana, o mal e a guerra. O enredo tem como personagem principal Klaus, editor de livros ‘perversos’, subversivos ao regime ditatorial que se impõe na cidade. Klaus, apesar de editar livros com este teor, vive uma rotina à margem do regime. Isso até o dia em que os militares invadem sua vida e o levam para cadeia, onde permanece por sete anos.

Nesse ínterim, os horrores da guerra são relatados. O autor descreve o estupro de Johanna, a namorada de Klaus, pelos militares e o destroço das famílias, que dentro em si divergem os pensamentos sobre a ditadura. De forma crua também é narrada a demência de Catharina, mãe de Johanna. A intenção de Tavares é, por meio das histórias, focar na essência do homem diante de um estado de necessidade e ausência de leis e moral.

Tavares escreve em frases curtas concisas de ideias. Em razão da atmosfera de pesar do livro, o autor parece narrar a história mais por meio dos silêncios e do desconforto do que por meio das palavras. O silêncio se apresenta carregado de incertezas e medos. Um trecho:

A sirene toca. Uma sirene militar não é um instrumento pacífico que faça dançar as mulheres. Aquela sirene fazia chorar as mulheres. A mãe perdeu a bagagem numa estação. A bagagem era a filha de seis anos. Perdeste a bagagem, mulher. A mãe chora porque não sabe da filha de seis anos: levaram-na!’

Apesar de ter apenas 115 páginas, ‘Um homem: Klaus Klump’, não é uma leitura rápida e leve. Entre os capítulos curtos Tavares muito se empenhou em deixar espaço para a reflexão e análise do leitor sobre o que leu. É uma escrita que requer certas paradas para respiração e ‘digestão’.

No geral, a leitura de Gonçalo M. Tavares é uma experiência atípica. O domínio do autor da linguagem é grande ao ponto de transportar o máximo de emoções que a história requer por meio dela.

Uma curiosidade: Gonçalo M. Tavares estreou na literatura em 2001 com a publicação de ‘O Livro da Dança’.

Outra curiosidade: O autor participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2006. Na ocasião ele falou de sua série de livros intitulada ‘O Bairro’, um local imaginário onde Valéry, Brecht e Calvino, entre outros, são vizinhos. A série é composta por 10 livros: ‘O Senhor Valéry’ ( vencedor do Prêmio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso), ‘O Senhor Henri’, ‘O Senhor Brecht’, O Senhor Juarroz’, ‘O Senhor Kraus’, ‘O Senhor Calvino’, ‘O Senhor Walser’, ‘O Senhor Breton’, ‘O Senhor Swedenborg’ e ‘O Senhor Eliot’.

Mais uma curiosidade: Há de se observar, não sem espanto, a volumosa produção literária de Gonçalo M. Tavares. Muitos foram os livros lançados por ele desde 2001, dentre romances, epopeias, poesia, enciclopédias e até uma peça de teatro.

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Um comentário sobre “‘Um Homem: Klaus Klump’, de Gonçalo M. Tavares

  1. Confesso que adoro a escrita de G.M.T.
    Não concordo consigo quando afirma que ‘Jerusalém’, é o mais aclamada dentre as obras de ‘O Reino’. Aprender a rezar na Era da Técnica venceu o prémio Médicis, basta olhar para a lista dos anteriores vencedores para perceber a importância do galardão:

    O Homem Sem Qualidades (1958), de Robert Musil, ou Cem Anos de Solidão (1969), de Gabriel Garcia Marquez, e outros autores como Kawabata, Soljenitsin, Guillermo Cabrera Infante, John Updike, Adolfo Bioy Casares, Mario Vargas Llosa, Günter Grass, Salman Rushdie, Orhan Pamuk ou Philip Roth. Até hoje só outro autor português venceu este prémio: António Lobo Antunes.

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