‘Uma história de amor real e supertriste’, de Gary Shteyngart

Gary Shteyngart é mais um dos autores que conheci por meio da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e que me aguçou a curiosidade. Descendente de russos, nasceu na então Leningrado (atual São Petersburgo) em plena Guerra Fria. Os pais, judeus, resolveram largar o que tinham e tentar a vida nos Estados Unidos quando Gary tinha apenas sete anos.

Dono de uma personalidade carregada de traços de sátira e acidez sem abrir mão do bom humor, o escritor me chamou atenção ao participar da penúltima mesa da Festa, denominada ‘Entre Fronteiras’. A ocasião foi um bate-papo com o escritor Hanif Kureishi, que é filho de paquistaneses e vive na Inglaterra, sobre identidade e condição de estrangeiro nas obras de ambos os autores.

O terceiro romance de Gary – que começou a ser escrito em 2006 – , ‘Uma história de amor real e supertriste’, conta os fatos da relação de Lenny Abramov e Eunice Park, que se conhecem na Itália, mas vivem nos Estados Unidos num futuro dominado pela tecnologia. Ela é filha de imigrantes coreanos e foge da realidade de uma família desestruturada cujo pai é agressivo, a mãe é uma fanática religiosa e a irmã é uma militante política engajada.

Lenny, por sua vez, é um nerd de 39 anos, apegado a antiguidades como livros (que no futuro da narrativa de Gary são chamados de ‘artefatos de mídia encadernados e impressos’) e ainda tem o hábito de escrever em papel. É com papel e caneta que ele começa a narrar sua história e a de Eunice. Entre um capítulo e outro do diário de Lenny, tem-se os e-mails e mensagens de texto enviados por Eunice, o que, além de dar velocidade à trama (já que deixa em suspenso a voz do narrador do capítulo anterior), evidenciam as diferenças latentes entre os dois. Enquanto Eunice é despachada e impulsiva, Lenny é romântico, cuidadoso e marcado por nunca ter encontrado uma companheira a quem pudesse se dedicar.

O mundo ao redor dos dois está à beira de um precipício econômico. Os Estados Unidos têm sua economia ameaçada por credores chineses, o dólar perdeu a força cambial e o país está politicamente nas mãos do Partido Bipartidário. As pessoas, em busca de ficar à margem de toda essa confusão politico-econômica, não desgrudam de seus ‘äppärät’, uma espécie de smartphone que bombardeia os indivíduos de informações a todo instante e reduz a interação pessoal.

As nuances futuristas do livro em muito guardam semelhanças com obras como ‘1984’ de George Orwell,  ‘Admirável mundo novo’ de Aldous Huxley e ‘Farenheit 451’ de Ray Bradbury. 

Lenny e Eunice tem um no outro a perspectiva de preencherem os vazios que os invadem. Mas como o autor antecipou no título da obra: não há romantismos por aqui. No entanto, a realidade de uma história de amor supertriste é narrada com a acidez e leveza que são características de Gary e tornam o livro absolutamente delicioso e memorável. O apego aos personagens é grande. Por várias vezes durante a leitura sofri junto com Lenny e me empolguei ou decepcionei com a impulsividade de Eunice.

Uma curiosidade: O primeiro romance de Gary Shteyngart , ‘O Pícaro Russo’, que relata a história de um judeu soviético de 25 anos com raízes russas e sonhos americanos, ganhou os prêmios Stephen Crane Award na categoria First Fiction e o National Jewish Book Award na categoria Fiction.

Outra curiosidade: Seu segundo livro, ‘Absurdistão’, que versa sobre um playboy russo que sonha se mudar para Nova York, foi indicado como um dos dez melhores livros do ano pelo jornal The New York Times Review e também como melhor livro do ano pela revista Time e pelo jornal ‘Chicago Tribune’.

Mais uma curiosidade: O autor é um dos selecionados da lista de Melhores Escritores Norte-Americanos da revista Granta (ela denovo!).

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