‘Ar de Dylan’, de Enrique Vila-Matas

‘Ar de Dylan’ é o último livro lançado pelo escritor catalão Enrique Vila-Matas, que esteve no Brasil em maio durante a última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na ocasião o escritor participou da mesa ‘Apenas Literatura’ ao lado do escriba chileno Alejandro Zambra, autor de ‘Bonsai’ (bonsai-de-alejandro-zambra). Vila-Matas também teve a incubência de assumir a mesa vaga pela ausência do escritor e ensaísta francês J.M.G.Le Clézio, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2008, que de última hora desmarcou a participação na Flip. Nesta mesa, Vila-Matas apenas leu fragmentos de ‘Ar de Dylan’, postura que dividiu opiniões dos presentes na Tenda dos Autores.

‘Ar de Dylan’ não foge à literatura que é peculiar a Vila-Matas. Na história o autor busca, por meio do trivial, falar sobre a construção da própria literatura. O que torna o escritor singular e fascinante é justamente isso: ele escreve sobre literatura e o fazer literário, mas tem por principal objetivo desconstruir o modo que se pensa literatura. Os livros de Vila-Matas são intrinsecamente metaliterários.

Nesta obra, o autor versa sobre um escritor sem nome, que, desiludido de toda obra que produziu, decide não mais escrever por estar insatisfeito. É aí que o escriba é ironicamente convidado a participar de um congresso cujo tema principal é o fracasso.

Durante o evento ele conhece Vilnius Lancastre, um publicitário fracassado responsável pela criação de um único curta-metragem, que está obcecado pela procedência de um frase do filme ‘Três Camaradas’ (‘Quando escurece, precisamos sempre de alguém’). Frase esta que ele atribuiu inicialmente ao escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald. Durante o congresso, Vilnicius afirma em uma palestra ter herdado a memória do pai falecido, o notável escritor Juan Lancastre. Além disso, Vilnius é fisicamente parecido com o cantor Bob Dylan quando jovem, semelhança que o faz merecer o apelido de ‘Little (Pequeno) Dylan’.

Sob este enredo que transita entre o prosaico e a fantasia, Vila-Matas tenta transpor as fronteiras entre a literatura e a ‘vida real’. Por meio dela o autor questiona nas entrelinhas a necessidade da literatura. Ao fim desta e de muitas outras obras de Vila-Matas, o que conclui o leitor é que não há respostas ou fórmulas, a literatura é ambígua e Vila-Matas é um genial provocador.

Uma curiosidade: o título do livro foi inspirado na obra ‘Ar de Paris’, de Marcel Duchamp. (http://migre.me/aacLS)

Outra curiosidade: segundo Vila-Matas, ‘Ar de Dylan’ começou a ser estruturado durante uma viagem a São Paulo em 2011. ‘Era a minha segunda visita ao Brasil, eu estava caminhando pela avenida Paulista e, ao passar pelo parque Trianon, comecei a ver a estrutura de Ar de Dylan, que eu já tinha começado a escrever, mas ainda não sabia que tipo de romance seria. São coisas que acontecem quando você viaja’, disse, em entrevista coletiva concedida na Flip deste ano.

Mais uma curiosidade: Nascido em Barcelona em 1948, Enrique Vila-Matas estreou na ficção em 1977 e já lançou um total de 33 livros em mais de 30 países. Todos os livros do autor são publicados no Brasil pela editora Cosac Naify. (Falei de outro livro de Vila-Matas aqui: suicidios-exemplares-de-enrique-vila-matas).

E uma última curiosidade: Em 1968 Vila-Matas foi morar em Paris,alugando um apartamento da escritora francesa Marguerite Duras (De quem falei aqui: o-amante-de-marguerite-duras). Nesse tempo o escritor atuou como jornalista na revista ‘Fotogramas’ e fez até foi figurante num filme de James Bond.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s