‘Barba ensopada de sangue’, de Daniel Galera

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Não faço parte do time que paga pau gratuito pro Daniel Galera. Componho uma agremiação fundada e formada apenas por mim que acha o escritor gaúcho um dos caras que melhor escreve na contemporaneidade, que possui um admirável estilo próprio, mas que ainda não havia lançado um livro que o fizesse digno de carregar a pecha de grande autor dos nossos dias.

Acompanho o Galera há algum tempo fazendo a leitura de tudo o que é lançado com a assinatura dele. Nesse ínterim chego a gostar mais de textos avulsos em blogs e ensaios publicados na Revista Serrote do que dos livros dele que se avolumam na minha estante. Reiteiro: Galera pra mim é um grande escritor sem um grande livro.

Isto até que me cai em mãos ‘Barba ensopada de sangue’, que comprei tão logo foi lançado. Diante das críticas amplamente favoráveis, iniciei a leitura com desconfiança. Afinal de contas, Galera é queridinho da crítica. Um autor de rosto bonito e ousadia que o fez ter sua própria editora e lançar seu primeiro livro, ‘Dentes Guardados’ (disponível em pdf aqui: http://ranchocarne.org/). Depois ele publicou pela Companhia das Letras, teve seu ‘Até o dia em que o cão morreu’ adaptado para o cinema pelo diretor Beto Brandt sob o título de ‘Cão sem dono’ (o melhor livro dele até ‘Barba’, na minha opinião. Gosto muitíssimo do filme também), participou da coleção ‘Amores Expressos’ ao lado de outros aclamados autores com seu ‘Cordilheira’, teve seu ‘Mãos de Cavalo’ bem aceito pela crítica, lançou a graphic novel ‘Cachalote’ e enquanto isso eu ainda esperava o grande feito do gaúcho bonitão que escreve bem pra caramba. Porque apesar da aparente relutância, sou grande fã do rapaz e sabia que qualquer hora dessas ele iria lançar um livrão.

E eis ‘Barba ensopada de sangue’, este livro de nome estranho que na contracapa é exaltado por ninguém menos que Ricardo Piglia, um dos maiores autores que o mundo terá notícia.

‘Barba’ conta a história de um educador físico sem nome que possui um distúrbio neurológico que o impede de memorizar os rostos alheios. É este o personagem principal ao redor do qual a trama de busca de identidade irá se construir. Ele parte em busca de desvendar o mistério da morte do avô, que, conta a história, foi assassinado em Garopaba, litoral catarinense.

Dentro desse contexto Galera desenha com riqueza de detalhes – por vezes exagerada e um pouco cansativa – a saga do treinador por desvendar os segredos de família. A narrativa tem ritmo. Em muitas partes fiquei com fôlego suspenso e a ansiedade por desatar os nós da história me fizeram não desgrudar do ‘Barba’ por horas incontáveis e deixar para depois eventos sociais. ‘Barba’ é projetado e construído com segurança a ponto de prender e conduzir o leitor resfolegante pelo desenrolar dos acontecimentos até um fim bastante sólido. Uma das características mais fortes da trama é a montagem de um inteligente quebra-cabeça dos fatos na cabeça do leitor. Nada é entregue de bandeja, mas aos poucos todos os questionamentos vão sendo respondidos e o livro termina sem interrogações ou buracos na narrativa.

Um ponto alto é que os personagens envolvem, são concretos. Não só o educador físico sem nome, mas o irmão Dante, a moça Dália, o moleque Pablo, os nativos da região, Viviane, a cachorra Beta – e principalmente ela – têm seus contornos tão bem definidos (talvez pelas descrições longas, que projetam um pouco de como o educador físico sem nome percebe e memoriza as pessoas e situações) que há um apego do leitor com os que compõem a história. ‘Barba’ tem uma carga de drama e envolvimento bem balanceados, há um apego genuíno pelo encontro do educador físico com sua história e consigo mesmo.

Enfim, finalmente afirmo em paz, do topo dos meus achismos mal fundamentados: Daniel Galera é um grande escritor com um grande livro.

Ps: ‘Barba’ foi lançado com capas em verde a azul. A minha é verde por falta de opção na livraria no momento em que comprei, mas acredito que a vermelha seja a mais condizente com a natureza violenta e visceral da história de Galera. Em tempo: há uma explicação plausível pro título incomum nas derradeiras páginas do romance. Chegar até lá não é difícil, e  a explicação para escolha do título é das boas.

Ps 2: O primeiro capítulo da obra foi selecionado pela revista Granta dos 20 Melhores Jovens Escritores Brasileiros no ano passado. Para concorrer a seleção da publicação Daniel Galera intitulou o primeiro capítulo do livro a ser lançado de ‘Apneia’.

Ps 3: Neste livro há forte influência de David Foster Wallace na escrita de Galera. Estão lá as notas de rodapé enormes que se tornaram grande marca do escritor americano morto em 2008.

 

 

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