‘Livro’ de José Luís Peixoto

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‘Livro’ é daqueles tipos raros de leitura que te faz parecer bobo ao fim dela. Isto porque encerrar esta obra invariavelmente te fará passar pelo papelão de  insistir docemente a todos os familiares, amigos, conhecidos, vizinhos, transeuntes, que a leiam rápido e agora, isto sem esquecer daquele sorrisinho nervoso de vendedor inexperiente.

Mas tudo por uma razão: ‘Livro’ prende. É daqueles que você até quer saber o que se passar em redor, que você até suspeita que a vida fora dele ainda exista, mas as linhas da história te parecem tão mais atraentes que continuar a leitura é o que mais te importa neste exato momento.

‘Livro’ é um resgate autobiográfico não vivido pelo escritor português José Luís Peixoto. Ele é filho de pais portugueses imigrantes para a França como forma de fugir da ditadura nos anos 60.

Ao fim do regime ditatorial, toda a família retorna à vila que deixaram em Portugal, onde Peixoto nasce e posteriormente faz dela cenário principal da primeira parte da narrativa de ‘Livro’.

A história é contada em duas partes: a primeira começa com uma mãe depositando nas mãos do filho, Ilídio, um livro e o deixando aos cuidados de Josué, um amigo. Começa então um relato de mais ou menos 50 anos da história central de Ilídio e Adelaide, moça da vila que ele se enamora e a quem presenteia com o mesmo livro dado por sua mãe no começo da narrativa.

Aos poucos é revelado ao leitor que ‘Livro’ não é só um objeto, mas também o nome do narrador da segunda parte da história. No entanto, não deixa de existir enquanto objeto, e citações a grandes obras e autores são frequentes na segunda parte do relato.

O livro objeto dado a Adelaide por Ilídio é o início da trama que vem a ser o embasamento da vida da moça em Paris, local para onde é enviada pela tia Lubéria quando descobre o romance entre a sobrinha e Ilídio. A partir de então os livros-objeto permeiam o cotidiano de Adelaide, que chega a trabalhar numa biblioteca.

O livro então se desenrola sob viés insuspeitados no começo da história: Ilídio parte em busca de Adelaide, mas os caminhos dos dois se desencontram e lapsos temporais e mudanças de voz narrativa chegam a confundir o leitor mais desatento.

No entanto, é nessa aparente confusão que José Luís Peixoto ousa no estilo de narrar a história que se apresenta sob diversos focos. Na França a história passa a ser contada por Livro, filho de Adelaide, que estabelece relação mais estreita com o leitor na hora de relatar o acontecido com a mãe ao longo da vida e seus antepassados portugueses.

Nesse ínterim o autor busca reconstruir nuances da própria memória de sua família itininerante entre os dois países. ‘Livro’, entre voltas e reviravoltas, não é romântico ou fantasioso, mas cativa pela abordagem inusitada e pela construção de frases de tal forma a transportar o leitor para o local da narrativa e reconstruir a história dos três: Ilídio, Adelaide e Livro.

Vale a leitura, a releitura e um espaço privilegiado na estante.

Uma curiosidade: José Luís Peixoto foi vencedor do Prêmio José Saramago de 2001 com a publicação de ‘Nenhum Olhar’.

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