‘O sonâmbulo amador’, de José Luiz Passos

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‘O sonâmbulo amador’ é um livro sobre encontros. Encontros consigo mesmo. O protagonista Jurandir é alguém em constante fuga  de seus fantasmas e problemas. Foge até perder-se e confundir-se neles, até que perceba que fugir de quem nós somos não nos é uma possibilidade.

A trama envolvente do pernambucano José Luiz Passos me caiu nas mãos por acaso. Vi elogios rasgados quanto a esse escritor até então por mim desconhecido no Facebook do escritor Ricardo Lísias (autor de ‘O Céu do Suicidas’, livro que resenhei aqui recentemente). Por ser uma indicação de um escritor que gosto muito, resolvi conhecer a literatura de José Luiz Passos.

O primeiro adjetivo que me vêm à mente para definir ‘O sonâmbulo amador’ é ‘cuidadoso’. Nota-se, ao longo das páginas, que o livro foi pensado e escrito com minúcia. Por não depender financeiramente de sua produção literária, (José Luiz é professor da Universidade da Califórnia) o escritor dedica-se com mais calma a seus textos, o que traz ao leitor uma trama esculpida com a maestria de palavras bem selecionadas em capítulos zelosamente formulados.

 Jurandir é um funcionário sessentão de uma indústria. Casado e amante de uma colega de trabalho, ele deixa a cidade onde mora, no interior de Pernambuco, para levar a um advogado na capital documentos referentes a um acidente de trabalho com um rapaz de sua empresa. Ele, que teve o filho adolescente morto em um acidente, sente as dores da mãe do rapaz acidentado na empresa e decide ajudar no andamento do processo judicial que envolve o jovem. No entanto, durante a viagem ele tem um surto psicótico e é internado numa clínica psiquiátrica. Lá, Jurandir começa um tratamento onde é obrigado a relatar em cadernos seu passado, presente e até seus sonhos.

Nesses relatos, muitas vezes o passado se confunde com o presente e os sonhos com o mundo real. Jurandir tenta achar o cerne de suas questões morais e comportamentais analisando a si mesmo com ajuda do médico Ênio e do enfermeiro Ramires, de quem se torna amigo. É aí que começa a ser montado um quebra-cabeça de quem Jurandir é e porquê ele é desta determinada forma.

Ao desenrolar da trama não deve o leitor esperar resposta para todas as questões de Jurandir. Semelhante à realidade, não há resposta para toda crise existencial do personagem. O que José Luiz Passos relata, mais do que respostas, é a maturidade e o engrandecimento moral de Jurandir adquiridos ao longo dos anos. É a percepção doo que é importante, do que tem grande valia pra si e para os seus.

O livro é envolvente, mas exige que o leitor mantenha atenção redobrada para entender os tempos e espaços em que Jurandir conta as histórias sobre si. Divido em quatro ‘cadernos’, todos escritos por Jurandir, a história muitas vezes não é cronológica, mas sem nunca perder a lógica, o ritmo ou o magnetismo.

 

 

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