‘Esquilos de Pavlov’, de Laura Erber

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Conheci Laura Erber lendo o conto Aquele vento na praça, publicado na revista Granta que elegeu os 20 melhores jovens escritores brasileiros do ano passado.

O conto de Laura na Granta não me prendeu a atenção (como quase todos os que lá estavam), mas a escrita caprichadíssima da escritora carioca me fez esperar ansiosa por Esquilos de Pavlov, seu romance de estreia. Até então a autora havia se restringido à poesia, tendo lançado quatro livros do gênero. Um deles, Os corpos e os dias (2008), foi indicado ao Prêmio Jabuti. Saber disso colocou Laura Erber na minha categoria mental de escritores contemporâneos brasileiros que merecem atenção.

Finalmente tive meu exemplar em mãos no começo da semana, e aproveitei uma viagem a trabalho para devorar meu Esquilos durante o trajeto.

Quem conduz a narrativa é Ciprian Momolescu, um artista romeno que também protagoniza a história. Ciprian saracoteia pela Europa às custas de bolsas de incentivo tentando reinventar-se diante do passado frustrado no campo artístico de seu pai e avô. Viajando por muitas cidades e conhecendo artistas dos mais diversos segmentos e realidades, ele constrói seu modo de fazer arte – que consiste em intervenções em bibliotecas – e gera no leitor uma reflexão sobre arte contemporânea.

O título do livro, enigmático e carente de reflexão como toda a obra, nasce de uma palestra de Ulrikka Pavlov, supostamente uma artista mais madura. O curioso sobre os ensinamentos da senhora Pavlov que martelam na cabeça de Ciprian, é que ele não teve a chance de assisti-la. As advertências de tão nobre senhora são enigmas que Ciprian reconstruiu junto aos colegas que estiveram presentes na ocasião. É a partir daí que se delineia mais fortemente o caráter aleatório do universo de descobertas em redor de Ciprian.

Apesar da escrita de Laura prender (não é penoso chegar ao final do livro, que tem cerca de 170 páginas), a leitura de Esquilos não é das mais fáceis. Isto porque são muitas as entrelinhas da narrativa. Há de se reparar atentamente nas gravuras que entremeiam alguns parágrafos, bem como observar o tempo da história, que muitas vezes quebra qualquer padrão de linearidade.

Apesar de, Esquilos é uma leitura a se desbravar. Seja pelo não óbvio da obra, seja pela reflexão sobre arte, limites, amadurecimento e descobertas que a história de Ciprian impõe.

‘Quando nasci uns braços peludos me seguraram acima da cabeça dos médicos. Eis o mundo, filho. Será que você cabe? Alguns cabem, outros entalam.’

‘A pergunta não é: será que eu caibo no mundo ou entalo? Mas: será que caibo em mim mesmo ou afundo? Até onde vai o meu barco? Continuará sem mim?’

‘…só com muito esforço e tarde demais descobriremos que alegria é uma questão de momento, que arte é uma palavra gasta e que para cada sim há sete nãos e dois talvez.’

‘Este mundo está cheio de gente enxergando pouco e falando ao mesmo tempo, Ciprian.’

‘Eu era um esquilo juntando coisas para um dia desistir de verdade e depois desistir de desistir.’

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