‘Divórcio’, de Ricardo Lísias

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O ano ainda não acabou e esta não será a última leitura que farei nele, mas me antecipo em dizer que Divórcio é o melhor livro que li em 2013. Minha vontade é imperativamente apenas dizer LEIAM, uma vez  que não há como exprimir numa resenha meu entusiasmo com esta obra.

Ricardo Lísias atribuiu a cada frase escrita neste livro toneladas de ímas. Não consegui largar, não consegui nem mesmo respirar enquanto li Divórcio. Tudo o que fiz foi correr a maratona de 15 quilômetros que o narrador, também nomeado Ricardo Lísias, me impôs. Cada capítulo do livro é um quilômetro desta corrida. Em alguns arfei, noutros as pernas fraquejaram diante das emoções relatadas, mas em nenhum momento a vontade foi de desistir da maratona. Divórcio arrebata, comove.

Conheço a literatura de Lísias desde a leitura de O Céu dos Suicidas (do qual falei aqui). Desde que li Céu pela primeira vez não canso de reler e devo ter presenteado pelo menos seis amigos com um exemplar dele.

Em Divórcio, Lísias repete a fórmula do Céu de narrar a história em primeira pessoa e emprestar seu próprio nome ao protagonista. O Lísias do livro se confunde com o real. (Pela amizade virtual que tenho com Lísias pelo Facebook sei que o autor, tal como o personagem, também pratica corrida. Não sei até que ponto o livro trata-se de autoficção).

O livro começa quando o narrador descobre que foi traído pela esposa – “a maior jornalista cultural do Brasil” – 40 dias após o casamento. Ele encontra fortuitamente o diário dela, onde há relatos ácidos sobre o marido. A ex-mulher acha que Lísias não possui ambições, é bobo e ter passou a vida inteira apenas lendo livros. A descoberta do diário e da traição faz com que o casamento acabe apenas 4 meses após ter começado.

Ao ler o diário inteiro num fôlego só Ricardo Lísias começa a viver o inferno de ter que se reconstituir de um trauma. Divórcio é o relato desse inferno, dessa agonia, dessa quase morte que toma conta do narrador ao descobrir a traição da mulher, e a forma rasteira como ela o enxerga.

“Depois de quatro dias sem dormir, achei que tivesse morrido. Meu corpo deitado na cama que comprei quando saí de casa. Olhei-me de uma distância de dois metros e, além de olhos vidrados, tive coragem apenas para conferir a respiração. Meu tórax não se movia. Esperei alguns minutos e conferi de novo.

A gente vive a morte acordado.”

Lísias se vê então sem pele, em carne viva, tentando continuar os dias, procurando respostas, rememorando situações. No diário, a ex-mulher (cujo nome não é registrado), conta que casou com a pessoa certa sem estar apaixonada. Depois narra, com toneladas de vaidade e egoísmo, como é bem-sucedida na carreira que escolheu e como o marido, ao seu ver, não está no mesmo ‘patamar’ que ela. A ex-mulher se limita a ver Ricardo Lísias como um sujeito sem grandes ambições, poupança no banco ou carteira de motorista.

“29 de julho: casei com um homem que não sabe dirigir e nunca se preocupou em comprar um apartamento. Por que me casei com um homem que não fez uma poupança? Fui eu que paguei o restaurante da Torre Eiffel e também o Alain Ducasse. Eu posso dizer que isso é casamento? O Ricardo não percebe a diferença desses lugares para qualquer restaurante de esquina e se comporta do mesmo jeito. Acho que ele sempre vai ser o simplório que é.”

O relato do autor é intercalado com fragmentos do diário da esposa. Os últimos capítulos são uma análise dele ao processo de escrita do próprio livro.

Tantas foram as vezes que me vi no narrador Ricardo Lísias. Lembrei de momentos em que saí de relacionamentos e estive também em carne viva, me sentindo num caleidoscópio de emoções que não conseguia lidar com equilíbrio. Em outros momentos, por também ser jornalista, me senti como a ex-mulher. Não por ter, em alguma situação, me comportado como ela, mas por fazer parte do universo de vaidades e troca de favores do jornalismo. Nesta faceta do livro o autor narra, muitas vezes de forma caricatural, o meio jornalístico: a relação promíscua da ex-mulher com as fontes, as fofocas, o teatro mal ensaiado, as escaladas nem sempre éticas por melhores informações e locais de trabalho.

Ao fim de Divórcio Ricardo Lísias narrador coloca o livro como um dos pilares para reconstrução de si. “Recorri à literatura porque não tenho mais nada”, ele diz. Sem a obra, talvez Lísias ainda estivesse em carne viva.

“Hoje estou estruturado de novo, embora tenha sempre que viver com uma lanterna no bolso. Não quero ter outro surto. O corpo sente muita dor quando se está sem pele. O ideal é morrer uma só vez.

Precisarei de contenção daqui em diante. É quase como uma condenação. Quem ficou louco uma vez está mais perto da segunda.”

Como já disse, não sei até que ponto o livro traz elementos reais para o universo de ficção de Ricardo Lísias. O que sei é que a história do divórcio do autor-personagem dilacera, instiga e reconstrói. 

[+] Dois contos de Lísias sobre o tema do livro foram publicados na revista piauí antes do lançamento de Divórcio. Podem ser lidos aqui e ali. Estes também são tema dos últimos capítulos do livro, quando o narrador-autor conta da publicação deles. Mais um elemento que confunde o real e o universo ficcional da obra.

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3 comentários sobre “‘Divórcio’, de Ricardo Lísias

  1. Ironias do destino, “a maior jornalista do Brasil” é uma desempregada vivendo de bolsa do governo. Sorte do Lisias, ter lido o diário. Fez um grande livro e se livrou de uma futura desempregada. A jornalista Ana Paula Sousa, em quem o livro foi inspirado agora cursa doutorado em Sociologia na Unicamp, sem nunca ter feito graduação nem mestrado na área. Ela passou 6 meses em Londres, e se aproveitou da tradução literal do curso “master” para dizer que é “Mestra em Artes”. Quem pesquisar sobre a jornalista Ana Paula Sousa, vai descobrir, por exemplo que ela se dizia formada pela USP, mas é falso. Ela apenas se matriculou na USP em Ciências Sociais e nunca cursou, foi jubilada. Como um professor da UNICAMP aceita no doutorado uma aluna que nunca fez graduação nem mestrado na área nem nunca realizou pesquisas, nem nunca publicou artigos científicos? Também nunca na vida publicou qualquer artigo acadêmico. Quem consultar o curriculum lattes de Ana Paula da Silva e Sousa, vai descobrir que ela utiliza matérias que escreveu como jornalista, para simular que é uma pesquisadora. Um jornalista dizer que escreve, é tão relevante quanto um motorista dizer que dirige. Ela também simula o curso de 6 meses em Londres, para pensarem que foi um curso de 2 anos. E o curso de Ciências Sociais que nunca cursou, ela quer dar a entender que cursou 4 anos.

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