‘Digam a Satã que o recado foi entendido’, de Daniel Pellizzari

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Digam a Satã que o recado foi entendido é a contribuição de Daniel Pelllizzari à coleção Amores Expressos, projeto da Companhia das Letras que enviou 16 escritores a diferentes cidades do mundo para, dentro do contexto daquele lugar, escrever uma história de amor. O projeto também tenciona adaptar os livros publicados para o cinema. É bem sabido que a coleção muito prometeu e pouco cumpriu até agora. Em meu juízo, só tenho por bom O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho. Isto até ler Satã, que passou a ser, pra mim, um novo fôlego para acompanhar os novos lançamentos da Amores Expressos.

Aqui, como em quase todos os livros da coleção, a tal história de amor que deveria reger todos as tramas ficou em segundo (terceiro, quarto, quinto?) plano. Talvez por isso o livro seja bem-sucedido, fuja dos clichês e impressione.

Digam a Satã que o recado foi entendido começa com Magnus Factor, jovem sem grandes ambições que acaba de chegar à Dublin, capital irlandesa. Magnus trabalha em uma agência de turismo que guia os visitantes da cidade por um suposto roteiro mal assombrado de Dublin, todos eles falsos. Depois que Pellizzari introduz o contexto do livro, ele começa a intercalar a narrativa, dando voz a outros personagens, que conduzem, de sua forma, sua histórias particulares. O livro então passa a ser contado por diferentes vozes narrativas intercaladas em primeira e terceira pessoa.

O fio que liga cada história, cada personagem, é a decadência moral e social de cada um deles. Numa sucessão de desventuras, todos os personagens a seu modo enviam seu recado ao Tinhoso: Digam a Satã que o recado foi entendido. Uma espécie de ‘já deu, já chega, o que mais falta acontecer?’

Dentre todos os personagens, o que mais me cativou foi Barry, um irlandês tragicômico de vocabulário porco, existência errante e devoto da ‘empresa maravilhosa Nintendo’. O capítulo de Barry, todo narrado em primeira pessoa, é hilariante. Impressionante o carisma do personagem que tem mais discurso do que ações concretas na vida. Todo esse capítulo me divertiu imensamente e me lembrou a genialidade da escrita de Reinaldo Moraes.

Longe de ser linear, a narrativa apresenta os personagens (destaque para Laura, estudante que faz parte de um grupo anarquista e Demetrius Vindaloo, criador de uma seita de deuses celtas e ufologia), que se intercruzam de alguma forma e se identificam por serem todos errantes, todos em busca de um sentido pras próprias vidas.

A narrativa, insuspeitada e tragicômica, diverte. Pelo atmosfera do lugar, pelas características peculiares de cada personagem, e pela curiosidade do leitor em saber como as histórias vão convergir entre e si e qual o final de cada existência esdrúxula que nos foi apresentada por Pellizzari.

O final faz entender o título e a capa do livro. Sem spoilers, uma dica é pensar no existir, no aprender, no descobrir, como um ciclo.

[+] A coleção Amores Expressos já publicou 11 livros dos 16 que se propôs. A lista de livros lançados pode ser vista aqui. O mais recente, além de Satã, é Ithaca Road, de Paulo Scott.

[+] Daniel Pellizzari esteve em Dublin em 2007 para fazer as pesquisas de campo e depois redigir Satã.

[+] O escritor é também tradutor e editor. Traduziu grandes obras como Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, coletânea de ensaios de David Foster Wallace, e os quadrinhos Asterios Polyp, de David Mazzucchelli e Sandman, de Neil Gaiman. É também fundador da extinta editora Livros do Mal, em parceira com Guilherme Pilla e Daniel Galera. É também autor de Dedo Negro com Unha. 

[+] O autor tem presença online no TwitterFacebook e neste site.

[+] Para conhecer mais do Pellizzari, só dar play aqui:

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