Direito ao desgosto

Não gosto de poesia. Tampouco de quadrinhos. Mas leio às escondidas. Superficialmente, julgo eu, sei conversar sobre os dois sem passar muita vergonha diante de quem gosta e/ou notadamente domina mais o assunto do que eu. O que não quer dizer que aprecie. No que consiste apreciar?

Semana passada um amigo me irritou questionando meu desamor por quadrinhos. O mesmo amigo já havia rechaçado meu desgosto por poesia, inclusive costuma falar comigo sobre o assunto como se eu fosse grande entusiasta dele. Fui dormir irritada com isso. Desgostar é um direito. Nem tudo nos salta aos olhos, nem tudo faz dentro em nós uma casa. Diante de tantas coisas que me empolgam verdadeiramente, me fazem passar dias em transe apaixonada, por que me ocupar justo do que não me provoca absolutamente nada disso?

Não tenho respostas. Mas defendo o direito ao desgosto. Desgoste de poesia você também! Não sem antes conhecer Ana C, Leminski, Chacal, Manoel de Barros, Ana Guardalupe. Odeie quadrinhos, mas leia Persépolis e Frango com Ameixas. Não passe largo de Retalhos e não devolva à prateleira sem ler o Palestina, de Joe Sacco. Mas resguarde em si o direito, um íntimo prazer, em não guardar dentro em si um sabor especial para quaisquer desses autores ou livros. Desamor é prazer também, ora.

 

 

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