Vico não escreve mais

Victor Heringer era tão raro.

 

Parecia um milagre que alguém tão jovem tivesse um trabalho tão minucioso, maduro, consciente de si mesmo. Li O Amor dos Homens Avulsos numa tacada e quando cheguei na última página imediatamente voltei ao início. Eu queria ler novamente, queria entender. Era surreal aquela construção narrativa que pingava naturalidade e precisão. Parecia que Victor tinha escrito tudo aquilo num imenso divertimento, dono das palavras e do sentidos, senhor absoluto dos contextos. Nada escapava, nada sobrava. Era perfeito.

 

Falei com entusiasmo desse livro pra muitas pessoas. Eu tinha descoberto uma preciosidade. Tão novo e já fazendo tanto. Aos 29 anos Victor já tinha um Jabuti, escrevia poesias, ensaios, contos, romance. Tudo com uma firmeza, uma harmonia incomum. Era jovem com bagagem de velho. Tinha um refinamento, uma sofisticação que pareciam impossíveis a alguém tão novo.

 

O Amor dos Homens Avulsos era de 2016 e eu só pensava que não deveria tardar um romance novo. “Poxa, vai ser um livrão”. “Vou comprar na pré-venda com certeza”. “Tomara que Victor esteja na Flip desse ano”. Imaginava tanta coisa que ele ainda ia fazer na literatura. E eu amaria cada detalhe. “Daqui dez anos o Victor vai ser paixão nacional”. E eu já era tão apaixonada por ele que quando encerrava o assunto do fazer literário do Victor e eu já havia usado todos os adjetivos da língua portuguesa para exaltá-lo eu precisava que dizer que, além de tudo, Victor era lindo. Lindo demais.

 

E eu, que sempre fujo da rota do “escritor- branco -hétero -classe média -com mestrado em literatura- escrevendo -essas- coisinhas” me via absolutamente encantada pelo Victor, pela narrativa com tantos detalhes, pelo olhar clínico para as sutilezas desapercebidas. Que literatura bonita, bem feita, bem polida, bem lapidada. Parece um trabalho de ourivesaria.

 

Hoje Victor não escreve mais. Ontem ele partiu, algo que me tomou de assalto. “Morre o autor Victor Heringer”. E só consegui pensar que talvez por isso Victor fez tanto com tão pouca idade. O tempo era curto. Ele era um milagre mesmo. Nasceu pronto, deixou um legado de peso e foi. Deixou a gente aqui sem entender – e como os finais são difíceis de aceitar! – e com muita saudade. Sinto saudade dos Homens Avulsos, do Glória, sinto saudades dos livros que o Victor ainda iria escrever. Mas hoje Victor não escreve mais.

 

Um dos últimos textos que li do Victor foi este ensaio na revista Continente e este poema. Porque sim, eu fiquei louca varrendo tudo o que o Victor havia escrito fora dos livros. Escrevi pra ele dizendo: “Victor, teu livro mudou minha vida. Muito obrigada”. E ele respondeu numa ternura, numa gentileza, dizendo que ler aquilo tinha salvo o domingo dele.

 

Não sei o que poderia ter sido dito para salvar o ontem, a quarta-feira de Victor. O final às vezes chega no meio das frases. Leiamos o que o Victor deixou. De alguma forma ele continua aqui.

 

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