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Aturdido. Eis uma palavra muda traçando fronteira com a loucura. Só hoje descubro esta sonoridade surda morando em mim, ainda menino. Aturdido pelo medo de, no futuro, não ganhar corpo, e não suportar o peso das caixas de manteiga. Aturdido por ter as carnes atrofiadas sobre os ossos. Aturdido por ter a alma como carga, e suportá-la para viver o eterno que existia depois de mim. Aturdido por ser mortal abrigando o imortal. Aturdido pelo receio de descumprir as promessas deixadas aos pés dos santos. Aturdido pela desconfiança de a vida ser uma definitiva mentira. Aturdido por vislumbrar o vago mundo como fantasia de Deus, em momento de ócio

(Vermelho Amargo – Bartolomeu Campos de Queirós)

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Eu me lembrava daquela coisa tão simples e cândida que Kafka tinha se perguntado certa vez: ‘Será verdade que se pode prender uma garota com a escrita?’. Poucas vezes se expressou com tanta ingenuidade, tanta precisão e tanta profundidade a essência da literatura. E esta é a tarefa que Kafka atribuiria à escrita em geral, e à sua escrita em particular. Porque, ao contrário do que tantos acreditam, não se escreve para entreter, embora a literatura seja das coisas mais divertidas que existem, nem se escreve para isso que chamam ‘contar histórias’, embora a literatura esteja cheia de relatos geniais. Não. Escreve-se para prender o leitor, para assenhorar-se dele, para seduzi-lo, para subjulgá-lo, para entrar no espírito do outro e permanecer ali, para comovê-lo, para conquistá-lo…’

(Enrique Vila-Matas em ‘Não há lugar para a lógica em Kassel’)

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E ele ficava feliz de estar morando ali com a mulher que amava tanto, ali perdidos e corajosos no seu isolamento. Logo ele voltava  para a cama e o fato de ter a mulher ali com ele vencia todos os seus sobressaltos e medos. E era uma coisa que ele descobria com a própria experiência. Amar – amar muito – tornava as pessoas senão indestrutíveis, pelo menos cheias de bravura.

(Sérgio Sant’Anna em ‘Eles Dois’, conto do livro ‘O Homem-Mulher’)

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– Oi, Marcos, tudo bom?

Oi, Marcos, nunca se acostumaria a ouvir a ex-mulher chamá-lo assim, alguém que por tanto tempo o chamara de meu bem, de meu amor, ainda mais daquela forma distraída, desinteressada, oi, Marcos, vivera anos com a mulher, tiveram filhos, casa, conta conjunta, uma vida, e um dia tudo aquilo deixava de existir e ela se tornava apenas uma desconhecida perfumada que entrava pela porta e dizia, como diria a qualquer um, oi, Marcos.

– Tudo bem.

(Carola Saavedra em ‘Flores Azuis’)

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‘Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto pra frente, com a mesma contração no rosto.

O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.’

(David Foster Wallace)

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‘O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade. Finalmente, chega a Isidora, cidade onde os palácios têm escadas em caracol incrustadas de caracóis marinhos, onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos, onde quando um estrangeiro está incerto entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galo se degeneram em lutas sanguinosas entre os apostadores. Ele pensava em todas essas coisas quando desejava uma cidade. Isidora, portanto, é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; ele está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações.’

(Ítalo Calvino em ‘As cidades invisíveis’)