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Direito ao desgosto

Não gosto de poesia. Tampouco de quadrinhos. Mas leio às escondidas. Superficialmente, julgo eu, sei conversar sobre os dois sem passar muita vergonha diante de quem gosta e/ou notadamente domina mais o assunto do que eu. O que não quer dizer que aprecie. No que consiste apreciar?

Semana passada um amigo me irritou questionando meu desamor por quadrinhos. O mesmo amigo já havia rechaçado meu desgosto por poesia, inclusive costuma falar comigo sobre o assunto como se eu fosse grande entusiasta dele. Fui dormir irritada com isso. Desgostar é um direito. Nem tudo nos salta aos olhos, nem tudo faz dentro em nós uma casa. Diante de tantas coisas que me empolgam verdadeiramente, me fazem passar dias em transe apaixonada, por que me ocupar justo do que não me provoca absolutamente nada disso?

Não tenho respostas. Mas defendo o direito ao desgosto. Desgoste de poesia você também! Não sem antes conhecer Ana C, Leminski, Chacal, Manoel de Barros, Ana Guardalupe. Odeie quadrinhos, mas leia Persépolis e Frango com Ameixas. Não passe largo de Retalhos e não devolva à prateleira sem ler o Palestina, de Joe Sacco. Mas resguarde em si o direito, um íntimo prazer, em não guardar dentro em si um sabor especial para quaisquer desses autores ou livros. Desamor é prazer também, ora.

 

 

Citando

“Acredito no momento. Acredito nesse balão alegre, o mundo.  Acredito na meia-noite e na hora do meio-dia. Mas no que mais acredito? Às vezes em tudo. Às vezes em nada. É algo que flutua como a luz refletindo numa lagoa. Acredito na vida que um dia todos vamos perder. Quando somos novos acreditamos que isso não vai acontecer, que somos diferentes. Quando era criança eu achava que nunca iria crescer, que podia realizar esse desejo com a minha vontade. E depois percebi, bem recentemente, que tinha atravessado alguma divisória, inconscientemente encoberta pela verdade da minha cronologia. Como ficamos tão velhos?, pergunto às minhas articulações, ao meu cabelo cor de ferro. Agora já estou mais velha que meu amor, que meus amigos que já se foram. Talvez eu viva tanto que a Biblioteca Pública de Nova York seja obrigada a me ceder a bengala de Virginia Woolf. Eu cuidaria da bengala para ela, das pedras de seu bolso. Mas também seguiria vivendo, recusando entregar minha caneta.”

(Patti Smith em “Linha M”)

Duas listras

Duas listras mudaram completamente a minha vida. Uma ao lado da outra elas sinalizavam positivo para uma gravidez. E assim eu descobri que não era somente uma. Dentro de mim havia mais de uma vida, uma pessoa completamente nova e entregue aos meus cuidados a partir dali.

Desde esse dia eu descobri que gestação é chegada. Nove meses e o bebê vai chegando aos poucos. No início, pra mim, ele chegou em forma de náuseas, mal estar, muito sono, cansaço, desânimo. No correr das semanas a chegada transformou-se em emoção a cada nova ultrassom. As batidas do coração e o mover do bebê tornavam palpável o que antes era abstração.

Depois foi a hora de saber o sexo: menina. Escolher um nome: Carolina. E a abstração revestiu-se de cores, entusiasmo das pessoas que me rodeavam e uma emoção latente dentro em mim. Eu serei mãe.

Há dias bons, onde os sintomas de chegada se anunciam de forma não invasiva ou dolorida, onde as perspectivas se anunciam boas. Há dias de dores físicas e emocionais, de medos, lágrimas, incertezas.

A gestação é chegada. E a cada novo abrir das portas e janelas dentro dentro de mim pra receber esse novo ser me sinto diferente. Sinto minha visão expandida. Passei a entender que as chegadas aos poucos nos preparam para nosso encontro. Em breve nascerá Carolina. Em breve nascerei como mãe. Nos reconheceremos nos nossos novos papéis, nos acolheremos. Nascimento é encontro.