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“Acredito no momento. Acredito nesse balão alegre, o mundo.  Acredito na meia-noite e na hora do meio-dia. Mas no que mais acredito? Às vezes em tudo. Às vezes em nada. É algo que flutua como a luz refletindo numa lagoa. Acredito na vida que um dia todos vamos perder. Quando somos novos acreditamos que isso não vai acontecer, que somos diferentes. Quando era criança eu achava que nunca iria crescer, que podia realizar esse desejo com a minha vontade. E depois percebi, bem recentemente, que tinha atravessado alguma divisória, inconscientemente encoberta pela verdade da minha cronologia. Como ficamos tão velhos?, pergunto às minhas articulações, ao meu cabelo cor de ferro. Agora já estou mais velha que meu amor, que meus amigos que já se foram. Talvez eu viva tanto que a Biblioteca Pública de Nova York seja obrigada a me ceder a bengala de Virginia Woolf. Eu cuidaria da bengala para ela, das pedras de seu bolso. Mas também seguiria vivendo, recusando entregar minha caneta.”

(Patti Smith em “Linha M”)

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Aturdido. Eis uma palavra muda traçando fronteira com a loucura. Só hoje descubro esta sonoridade surda morando em mim, ainda menino. Aturdido pelo medo de, no futuro, não ganhar corpo, e não suportar o peso das caixas de manteiga. Aturdido por ter as carnes atrofiadas sobre os ossos. Aturdido por ter a alma como carga, e suportá-la para viver o eterno que existia depois de mim. Aturdido por ser mortal abrigando o imortal. Aturdido pelo receio de descumprir as promessas deixadas aos pés dos santos. Aturdido pela desconfiança de a vida ser uma definitiva mentira. Aturdido por vislumbrar o vago mundo como fantasia de Deus, em momento de ócio

(Vermelho Amargo – Bartolomeu Campos de Queirós)

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Eu me lembrava daquela coisa tão simples e cândida que Kafka tinha se perguntado certa vez: ‘Será verdade que se pode prender uma garota com a escrita?’. Poucas vezes se expressou com tanta ingenuidade, tanta precisão e tanta profundidade a essência da literatura. E esta é a tarefa que Kafka atribuiria à escrita em geral, e à sua escrita em particular. Porque, ao contrário do que tantos acreditam, não se escreve para entreter, embora a literatura seja das coisas mais divertidas que existem, nem se escreve para isso que chamam ‘contar histórias’, embora a literatura esteja cheia de relatos geniais. Não. Escreve-se para prender o leitor, para assenhorar-se dele, para seduzi-lo, para subjulgá-lo, para entrar no espírito do outro e permanecer ali, para comovê-lo, para conquistá-lo…’

(Enrique Vila-Matas em ‘Não há lugar para a lógica em Kassel’)

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E ele ficava feliz de estar morando ali com a mulher que amava tanto, ali perdidos e corajosos no seu isolamento. Logo ele voltava  para a cama e o fato de ter a mulher ali com ele vencia todos os seus sobressaltos e medos. E era uma coisa que ele descobria com a própria experiência. Amar – amar muito – tornava as pessoas senão indestrutíveis, pelo menos cheias de bravura.

(Sérgio Sant’Anna em ‘Eles Dois’, conto do livro ‘O Homem-Mulher’)

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‘Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto pra frente, com a mesma contração no rosto.

O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.’

(David Foster Wallace)

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Meu vô continuava rindo. Acho bom explicar que ele não ria que nem a maioria das pessoas. Uma vez, acho que eu tinha uns seis ou sete anos, ele me falou que o destino de todo mundo é virar idiota. Algumas pessoas percebem isso, outras não, mas todas acabam virando idiotas. Aí ele me falou que o importante era lembrar sempre disso e tentar ser um idiota extraordinário. Acho que era por isso que ele ria daquele jeito.

(Daniel Pellizzari em Digam a satã que o recado foi entendido)